terça-feira, abril 25, 2006

Saudades do verão

Que bom que sabe ver um pôr-do-sol destes.
É o cair da noite calma, silenciosa, amena e até por vezes excessivamente quente, que nos embala por vezes num infinito de sonhos, como se a imaginação se deixasse levar despreocupada pela liberdade do pensamento.
Que saudades do Verão, de nos deixarmos arrastar ao sabor do bom tempo pelo vislumbre de belas paisagens, cujas cores nos consomem, ao sabor de uma bebida bem fresquinha tomada entre amigos, das noites de férias passadas na cavaqueira não importa o lugar, dos corpos desnudados e de trajes despreocupadoss, de um entardecer lento e vislumbrante num regresso da praia. Dos sons que trespassam o silêncio das noites, por vezes à escuta de soslaio dos sons poderosos do Atlântico.

domingo, março 26, 2006

A praia que me viu crescer

O mar azul espraia-se languidamente na Areia Branca

Os campos verdes pintam as arribas que recortam o teu Areal

Do alto avisto-te ao longe esbelta e serena
e trazes-me à lembrança a infância em cujas tardes quentes de veraneio passava em teu Areal e me vestia de areia só para poder entrar nas tuas águas

Escondes em cada onda as confissões feitas em surdina só entre tu e eu....

quarta-feira, março 22, 2006

Dia Mundial da Poesia

Escrever poesia, no mundo actual, é uma forma de conservar o que, em cada dia, vamos perdendo: o ser no tempo, a identidade do eu na dissolução do sujeito devorado pelo movimento do mundo."

Nuno Júdice, As Máscaras do Poema, Lisboa, 1998

Deixo Nuno Júdice e acho que vou pedir à musa inspiradora de Camões para me iluminar também.

sábado, março 18, 2006

O que dá andar dessarrumar estantes



Pois é, de vez em quando, com alguma regularidade, lá tem de ser, pois o que não gosto mesmo é ver os meus livros entranhados com resquícios de pó.
No meio de alguns muitos :), lá estava o Baudolino de Umberto Eco, um dos livros que mais me apaixonaram e um dos mais parcantes no meu percurso de leitora e de pessoa interessada em literatura.

Umberto Eco desafia o leitor a compreender o que parece indecifrável, desafia-o mesmo a quase deixar de ler, numa espécie de tensão literária, em que o próprio escritor quer conduzir o leitor do (in)decifrável em (in)decifrável, de época em época, fazendo-o pensar no que é no fim de contas a literatura. Neste sentido, este texto literário é concebido como uma espécie de manta de Penélope, cujos retalhos Penélope faz e desfaz num movimento constante. É no fundo o que o autor desta obra quer levar o leitor a pensar: a literatura não é mais do que uma manta de retalhos que vão sendo entretecidos, sendo também essa manta cada texto literário em que parte das suas referências nos remetem para a tradição literária.
Baudolino, a personagem principal, desempenha ele próprio a função de leitor, ao mesmo tempo ouvinte de toda uma tradição literária. Eco transporta-nos à época medieval, altura em que a literatura possuia apenas uma base oral.
Baudolino conhece os mundos da literatura e torna-se, portanto, leitor e re-leitor dessa tradição. Além de conhecedor, esta personagem é ainda contadora de histórias e escreve versos para um "falso" poeta. A um terceiro plano, Baudolino é também ele uma personagem história, pois o que a obra de Umberto Eco também nos conta não é mais do que também o seu enamoramento ficcional pela Senhora do Licórnio ou, como queiram, Dame à la Licorne, na tradição medieval francesa, tradição literária que remonta aos finais do século XV bem representada numa extraordinária tapeçaria medieval que pode ser vista no Museu de Clunny, em Paris.
Ora, no desenrolar da estória, cuja narração é assegurada por Baudolino, aparece-nos Nicetas, um dos ouvintes do contador dé estórias por excelência, um sábio mestre da ficção e ábil na construção de histórias ficcionadas, a ponto de reconhecer em Baudolino um grande mentiroso. Uma vez mais o leitor atento consegue dar-se conta da presença bem disfarçada do autor, um autor que, também através do discurso de duas personagens ligadas ao mundo da literatura, quer levar o leitor a compreender que a aparente verdade de um texto literário resulta apenas e sobretudo de estratégias narrativas.
Além de Nicetas, Diácono João é outra das personagens ouvintes de Baudolino. Diácono João vive fascinado com as estórias contadas, enquanto registos de vivências possíveis, de mundos que poderiam existir e que a literatura e qualquer arte tem o dom de construir. diácono João, ao contrário de Nicetas, não é mais do que o exemplo do protótipo de leitor que se deixa levar pelas "verdades" que emanam dos textos.
O livro de Umberto Eco apresenta-nos ainda um quarto plano de leitor: Nós que aqui e agora nos prendemos à leitura da obra de Eco, sentindo-nosfascnados pela leitura e por toda a tradição do contar de histórias que remonta à época medieval. Nós, leitores atentos e conhecedores dessa tradição literária, somos levados a identificar cada passo que nos remete para essa tradição num texto minado de referências. Nesta perspectiva, somos também ouvintes, leitores e estamos convocados a reler toda essa literatura que está para trás e, quem sabe, tornarmo-nos também transmissores e contadores de histórias.

Para os interessados, o Baudolino de Umberto Eco é publicado pela editora portuguesa Difel, com tradução de José Colaço Barreiros

sábado, março 11, 2006

A vida mais perto da arte do que do jornalismo



Confesso que não sou grande fã do Rodrigo Guedes de Carvalho, pivô do Jornal da Noite da SiC, mas confesso que partilho algumas das suas ideias quando fala sobre entre o ser-se escritor e o ser-se jornalista.
Em entrevista publicada no Jornal de Notícias no Sábado, dia 11 de Março, Rodrigo Guedes de Carvalho fala do seu lado de escritor e argumentista.
É autor do livro A Casa Quieta, publicado há ano e meio, tendo sido um dos livros escolhidos pelo Instituto do Livro e das Bibliotecas para representar Portugal na bienal de Sâo Paulo. Em Abril prepara-se para lançar A Mulher em branco. Escreveu também o argumento do filme português "Coisa Ruim", que deverá estrear em Abril próximo.
Sendo a escrita uma paixão, é interessante como o jornalisto e a literatura se complementam, no que diz respeito à forma como essa mesma escrita é explorada: o lado objectivo, frio, racional, parcial do jornalista; e lado subjectivo, emotivo, imaginativo, por vezes irracional do escritor. É a perfeita dicotomia entre o pensar e o sentir, a razão e a emoção.

Vale a pena transcrever excertos desta entrevista

"Jornalismo passa ao lado da vida"
Não escreve para que lhe descubram as entranhas, mas reconhece que os seus livros dirão mais de si do que o jornalismo. Não tem a preocupação de obedecer às tendências e teme o dia em que a obra seguinte não esteja à altura da anterior.

Definiu um público alvo? (a propósito de Coisa Ruim)
Nunca o defino. Primeiro, porque podemos não atingir todo o público-alvo; segundo, porque estaríamos a excluir parte do público. Escrevo na esperança de que toda a gente aprecie, sabendo que isso é impossível. Mas há uma coisa que está a verificar-se e que nos enche de orgulho: na generalidade tivemos boa crítica e estamos a ter muito público. Os dados do primeiro fim-de-semana são muitíssimo prometedores.


A cultura merecia ter mais expressão nos media?
Completamente! Sou um lutador dentro da SIC para que a cultura tenha mais cobertura mediática. E nós já devemos ser os que lhe prestamos maior atenção.


Dois filmes nomeados para os Oscars levantaram questões essenciais sobre o jornalismo. Entre a vampirização dos afectos ["Capote"] e a incondicional vigilância da verdade ["Boa noite e boa sorte"] onde se situa?
No cinema interessa-me pouco a caução do real. Mas, por natureza, o jornalista é um vampiro, embora não tanto quanto o escritor, que está quase sempre a levitar do seu corpo. Tudo é matéria, mesmo as coisas mais pessoais. O jornalismo tem um drama: passa ao lado do essencial da vida. Toca, como um mosquito, coisas e vidas às vezes graves e segue para a próxima reportagem. Não podemos sentir-nos culpados. Não podemos embrenhar-nos na vida de todas as pessoas que tocamos.


Mas é-lhe permitida emoção, piscar o olho ao espectador?
Não sou um absoluto fundamentalista da objectividade, até porque, enquanto valor absoluto, não existe. O jornalista, passe o lugar comum, é um ser humano. Não pode é utilizar as emoções que retirou da reportagem para com isso manipular o espectador.


Os seus livros resultam da adaptação de episódios reais fornecidos pelo jornalismo?
Não preciso de acontecimentos reais para ficcionar. Até agora não o fiz, mas não me choca quem o faz. O escritor não deve ter barreiras que não sejam as do seu bom senso. Tudo serve, desde que seja feito com qualidade. Não pode haver barreiras na arte.


No seu caso, a informação funciona como elemento inibidor?
A informação com que lido não me tem fornecido matéria interessante. No meu próximo livro há uma criança que desaparece. Isso não quer dizer que o escrevi porque tenho dado muitas notícias sobre crianças que desaparecem. Mas como a minha escrita não tem nada de fantasioso - é sempre sobre pessoas e acontecimentos reais -, é normal que algumas situações sejam contaminadas por notícias que apresento.


Fez pesquisa sobre a matéria? (Sobre Mulher em branco)
Não, não pergunto nada a ninguém. Estou permanentemente a fazer pesquisa no meu dia-a-dia, em silêncio. E quando escrevo estou completamente a marimbar-me para as tendências, senão teria escrito um romance histórico. E estava garantido. Interessa-me a relação orgânica que tenho com a minha escrita, explorar cada vez melhor a palavra. Vejo a literatura como a escultura: temos um pedaço de granito e começamos a buscar o que está lá por baixo. É uma luta comigo: tentar ser melhor. E como tenho a vantagem de não viver da literatura, escuso de saber o que o mercado quer.
Fica a ideia de que se protege no jornalismo na proporção em que se expõe na literatura...
Nenhum deles sou eu, nem o escritor nem o jornalista. No jornalismo represento a redacção e as notícias produzidas nesse dia. Cumpro regras básicas: dou voz aos dois lados da notícia, trato com seriedade uns assuntos, permito-me leveza noutros. Basta uma pausa ou um sorriso e percebe-se que tenho uma visão irónica sobre aquilo. Mas não é o meu jornal, é o jornal da SIC. Na escrita, parece que finalmente está a conhecer-se as entranhas da pessoa - afinal é uma pessoa sensível [risos]. Mas a escrita é também a representação de algo. Mesmo que aquilo que escrevo pareça quente e arrancado num repente, o processo de escrita é um mecanismo frio para provocar essa sensação.


Não me refiro a literatura autobiográfica. O facto de escrever sobre sangue não quer dizer que esteja a sangrar, mas escrever sobre sangue dirá uma coisa diferente do que diria se escrevesse sobre água.
Sim, nesse sentido, sou muito mais eu na escrita, embora não tenha partido com essa necessidade de me dar a conhecer. Escrevo porque me dá prazer. É natural que diga muito de mim, quer nas escolhas dos temas, quer nos desenhos das personagens. Está lá muito do que amo e muito do que odeio.


Deposita nos livros o que despreza na sua vida?
Não trabalho com essa missão, mas às vezes acontece. No novo romance há um personagem que representa tudo o que me repugna. É como se estivesse a libertar-me de algo que não quero para a minha vida, que não gostaria de ser. Há quem diga que se escrevo aquela cena é porque ela está dentro de mim, não entendo. Por exemplo, em "A casa quieta" escrever sobre a incomunicabilidade ajudou a melhorar a minha vida. Não posso escrever sobre o drama que é perdermos tempo a não dizermos que gostamos uns dos outros se não o praticar na minha vida.

O encanto da escrita reflecte um desencanto com o jornalismo?
Não, até porque comecei a escrever antes de ser jornalista. O jornalismo, de alguma forma, passa ao lado do essencial da vida. Pela sua natureza, volatilidade, rapidez. Interessam-me coisas onde possa estacionar, pensar mais. A arte, sendo ficção, aproxima-nos mais do que é essencial na vida do que a realidade nua e crua do jornalismo. E o que procuramos na arte são emoções.

Questiona o seu talento enquanto escritor?
Todos os dias e cada vez mais.

Essa superação constante nos seus livros passa muito pelo apuramento da forma. É mais importante do que o conteúdo?
A forma é o que realmente nos toca. No jornalismo, o sensacionalismo nunca está no conteúdo, está sempre na forma. Na literatura, dois escritores podem pegar na mesma história e só um tocar-nos. Tocar, revolver, emocionar está na forma como se escreve.


Se perguntar se é escritor provavelmente dir-me-á que não...
Sou escritor e jornalista. Mas tenho tanto respeito pela palavra escritor que não quero ser eu a considerar-me.


A literatura é o seu campeonato.
Sim, é querer ser considerado escritor.

segunda-feira, março 06, 2006

Castelo de cartas


Assaltam-me incertezas
Roubam-me prantos
Quebram-se quimeras
Aloja-se a mágoa

..... e o sonho...frágil...
esvai-se...
perante a súbita tempestade do vento

Desmoronam-se paraísos de esperança
ah Antero! pudesses tu ressuscitar cavaleiros andantes!

Ser ou não ser?

Confesso que milhentas ideias me passaram pela cabeça e que chegaram ao ponto de destruir este blog. Mas por mais que não escreva aqui, é o meu espaço de divagação, de dar a conhecer o que vou escrevendo e até o que não vou escrevendo, o que tem acontecido nestes últimos tempos. Ora, é baseado neste ponto que decidi continuar com este meu espacinho, porque ao "artista" (será que me incluo?!) também lhe é dado o direito a não conceber qualquer obra, porque a concepção envolve uma vontade megalómana de fazer arte, de explorar ad infinitum a expressão artística, como se se tratasse da seiva que alimenta o criador e a sua obra.
Portanto, se isto acontece aos "grandes", eu rendo-me às evidências.
Pode ser que comece a mostrar a minha outra vertente mais jornalística e a deixar por aqui algumas crónicas.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Obras de introspecção

Porque é que atrás de uma boa fase surge sempre uma menos boa em que, apesar de querermos ultrapassar os problemas, esses mesmos problemas tropeçam constantemente à nossa frente?

Isto poderia ser o mote para uma grande divagação filosófica, mas sinceramente não ando com motivação para escrever.

Costuma dizer-se que por morrer uma andorinha não acaba a primavera, mas esta alonga-se infinitamente no tempo, tornando difícil a sua ultrapassagem.....

Nesta fase das obras de introspecção logo verei o que hei-de fazer a este blogue que está a precisar de apanhar outros ares.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Pensamentos soltos

A chuva miudinha
a bater levemente na janela
são como segredos de amor
sussurrados ao ouvido

A noite serena
silencia as palavras
que nas asas do sonho se perdem no infinito


segunda-feira, novembro 21, 2005

Divagações de inverno


Um esgar de olhos
num dia de chuva e vento
traz-me à lembrança
os dias em que o sol do fim de tarde
me embala numa contemplação
os sonhos tornam-me
paraíso dos teus dias de treva
o luar numa noite de inverno
a onda que se desfaz na mansidão oceânica
o ser do teu não ser
o porto de abrigo do teu mar revolto
o sol que esbrasseia o teu corpo em dias de temporal
a lágrima dos teus olhos
a pétala da tua flor silvestre
a seiva que serve de alimento ao coração
a noite que te acolhe em sonhos idílicos
a sossego do teu desassossego
a gota que brota do rio
eternidade que se alonga além daquele momento
em que o teu olhar se cruzou com o meu



Imagem detirada daqui ("Fantasia aquática", Luiz Luxvich)

sexta-feira, outubro 21, 2005

Para o que me deu hoje

À Falta de alguma imaginação para dar asas ao pensamento e deixá-lo voar livremente, vou falar de política. Tinha prometido a mim mesma não o fazer neste blog, também por questões profissionais, mas por vezes a tentação.... Pronto não resisti. A política passa-me todos os dias pelas mãos e não é que hoje se escorregou até à ponta dos dedos que, por sua, vez, tocaram no teclado? pois é!
Não escondo que gosto de política. Pelas funções que desempenho profissionalmente, gosto de uma boa análise política, lbem neutral, imparcial, longe que estou de partidos, cargos políticos, tachos e afins.
Graças a um fabuloso jantar (profissional) de amigos (olhem que no Bombarral come-se muito bem), perdi o tão esperado anúncio presidencial. Estava expectante com o avanço ou um retrocesso de mais uma candidatura e que candidatura! É claro que o retrocesso seria uma ínfima hipótese. Cavaco Silva tem o dom de aparecer e surpreender, quando todos menos esperam pela sua reacção. E que pedrada no charco no PSD! Ora bem, temos candidatura independente e uma suspensão da filiação de Cavaco Silva no PSD! Da sua inteligência já eu tinha conhecimento, mas não me passou pela cabeça que Cavaco seguisse o propósito de Manuel Alegre, à esquerda. Aqui estão bons exemplos de revitalização da cidadania política! Infelizmente, a política sai muito desgastada pelos partidos. Desta forma, apesar das sondagens já darem a maioria das intenções de voto ao ex primeiro-ministro, Cavaco Silva só reforçará a sua imagem pela positiva junto dos eleitores. A meu ver, teremos futuro presidente da república INDEPENDENTE, seja ele da esquerda ou da direita. o Dr Mário Soares poderá arredar-se definitivamente da vida política com uma estonteante derrota. Poderei estar engadana, mas falaremos daqui a uns meses..... A minha curiosidade agora é se o PSD vai apoiar Cavaco Silva (o que seria uma jogada de mestre) ou, por teimosia, vai avançar com outra candidatura.

quarta-feira, outubro 19, 2005

...

Os nossos silêncios levam-nos por vezes a introspecções sobre nós próprios e quem nos rodeia. Por isso mesmo a imaginação não sai liberta, desenfreada. Por vezes precisamos de falar para nós próprios, interrogarmo-nos sobre a nossa vida e os que estão a ela ligada. Também a vida é repartida por fases, por compartimentos, que se vão fechando e abrindo, à medida das nossas necessidades, vontades, desejos, paixões e momentos.
Quem me conhece mais de perto sabe que eu funciono muito de acordo com o tempo. Estou portanto na fase mais outonal da vida, tempo de renovação, de deitar fora as folhas que parecem desusadas, inúteis ou que, parecendo novas, por vezes sucumbem à passagem do tempo, quando se mostram desprotegias, desamparadas.
Prometo voltar depressa e dar ao blog o melhor que sei e que este espaço merece, dentro do âmbito em que ele foi criado.

terça-feira, agosto 23, 2005

Na demanda da felicidade

Deixa-me perfurar essa tua rocha de silêncio
fazer de cada pensamento
sonhos de fantasia tornados realidade
de cada palavra
declarações de amor ao luar das noites quentes
de cada gesto
notas soltas do hino à felicidade

tornar as incertezas em certezas
como barcos de papel transformados em barcos à vela
ao sabor de um vento ameno, mas outrora revolto

domingo, julho 24, 2005

Se eu não te amasse tanto

Desconhecia esta música da Ivete sangalo, a sempre Ivete que consegue contagiar qualquer um com o seu ritmo e a energia contagiante em palco. A letra é algo de fenomenal, ainda para mais ouvida pela voz fantástica da Ivete, como ontem ouvi.
O segredo da poesia está precisamente naquela forma especial de chegar ao outro e, através música, de conseguir penetrar no ouvido de uma forma tão subtil. Ditas no momento certo, que mágicas se tornam, ó se se tornam.

Meu coração, sem direcção
Voando só por voar
Sem saber aonde chegar
Sonhando em te encontrar

E as estrelas
Que hoje eu descobri no seu olhar
As estrelas vão me guiar

Se eu não te amasse tanto assim
Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim
E vivesse na escuridão
Se eu não te amasse tanto assim
Talvez não visse flores por onde eu vim
Dentro do meu coração

Hoje eu sei, eu te amei
No vento de um temporal
Mas fui mais, muito além
Do tempo do vendaval
Nos desejos, num beijo
Que eu jamais provei igual
E as estrelas dão um sinal
(Herbert Viana e Sérgio Valle)

http://www.ivetesangalo.com.br/base.html

(tenho uma foto com a Ivete yeeeeeeeeeeeeeeees)

quarta-feira, junho 29, 2005

Estrelas (de papel)


Escrevo palavras ao vento
as letras tornam-se palavras aladas
os céus rasgam-se em nuvens de mil cores
o universo cintila de estrelas

....
As incandescências tornam-se cadentes
e transformam-se dia após dia
em barcos de papel a vaguear ao vento
sob a égide de umas amarras
no meu porto de abrigo

quarta-feira, junho 15, 2005

Deleite


(Sónia de Jesus, 2005, in Olhares)

Saboreio um alperce
Maduro, doce, suculento
Num encontro
entre lábios
Sensíveis, doces
Em gestos brandos
de puro calor
Quando o sol abrasa
E nos deixa cobiçosos
De uma rosa nutrida de água gotejante

terça-feira, junho 14, 2005

Perdeu-se o Homem, mas não a Obra



Eugénio de Andrade, nascido a 19/01/1923 no Fundão, faleceu ontem no Porto. Depois de Sophia de Mello Breuyner em 2004, Portugal perde mais um grande expoente da dua literatura. No entanto, a obra mantém-se eterna.

Surdo, Subterrâneo Rio Surdo,
subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?


Eugénio de Andrade

De salientar, na sua carreira artística, o Prémio Camões atribuído em 2001. Todavia, faltou-lhe o Nobel da Literatura, que, para ele, "não tem importância nenhuma", confessou numa entrevista ao Diário de Notícias em 2001.
Nessa altura, confessava que "os prémios vêm sempre tarde". E No caso dele, nem tarde.... Questionado frontalmente sobre o Nobel da Literatura, respondia: "O Nobel é impensável! Os franceses, os ingleses, os alemães podem aspirar a isso. Em Portugal, aconteceu uma vez; não voltará a suceder tão cedo. Não há nenhum membro da Academia Sueca que leia português. Eu também não escrevo - nenhum escritor escreve - para ganhar prémios. O Nobel é um prémio como outro qualquer, só dá mais dinheiro, mas não tem importância nenhuma." Num esforço mais de análise sobre os estes prémios já atribuídos, dava o caso de Winston Churchil, considerando que "até dá vontade de rir quando pensamos em alguns nomes que tiveram o Nobel...". O próprio José Saramago, Nobel da Literatura em 98, considerava que Eugénio de Andrade era quem devia ter ganho este galardão, defendendo que a "poesia é a mais alta expressão do génio português."

sexta-feira, junho 10, 2005

???????



O som ondulante do mar
traz-me
o eco distante da tua voz
enquanto as nuvens no ar
desenham
a tua imagem
num processo que ludibria
a visão de um areal numa tarde de veraneio

Das minhas interrogações
faço ouvinte cada grão de areia
que se espalha por entre os dedos
num movimento de todo contrário
à ânsia do tempo

sexta-feira, junho 03, 2005

Areia Branca



Areia Branca, nome que me fascinou logo de imediato pelas minhas raízes geográficas,
é um livro de poesia, publicado pela Minerva, de autoria de Margarida Pelágio, que neste momento é minha conterrânea e que amavelmente me ofereceu hoje um exemplar,
que já li de fio a pavio.

Além da dedicatória a mim dirigida, o livro vinha acompanhado por um separador, onde está inscrito um dos seus poemas. Pela dificuldade em escolher apenas um deles para aqui colocar (tarefa ingrata, dada a sua qualidade), dei preferência a este.

Não consigo

Não consigo
Sonhar com o tempo
Quando ele avança
No deserto, sem luz!

Nem tão pouco
Viver os escombros
Duma vida inútil
Com sonhos de louco
E olhos sem ver!

Não consigo
Ser mais do que sou....
- Um sorriso que morre
No tempo que voa.

E este meu ser
Assim como sou
É o que ainda há
- O que em mim ficou!...

Mas se um dia alguém
Em mim acordar
O que agora dorme,
Será a sonhar
Que então vivirei!...

Porque acordada.....
- Jamais poderei!.....

segunda-feira, maio 30, 2005

Pensamentos

Como tenho sempre à mão papel e caneta decidi partilhar com quem me ler algumas reflexões para tornar a folha branca de papel num folha reflexiva, útil. É que, apesar das novas tecnologias, poucos são os meus escritos que não passam pelo crivo do papel. Apenas os textos de imprensa são imediatamente escritos no computador, mas pouco ou nada têm de mim. Apenas e quase uma assinatura que vincula o meu nome a um artigo, que pode deixar transparecer algumas características da minha escrita, sendo ela mesmo assim objectiva.
Assisti, hoje, a um seminário sobre o tema “A escola, factor de desenvolvimento da comunidade” e fez-me lembrar os tempos ainda pouco longínquos das conferências que ia assistir, em que obviamente mais do que à procura de notícia, procurava prestar atenção à forma eloquente dos oradores, aos saberes que cada um transportava para o seu público e à paixão com que cada um falava. À palestra a que assisti hoje, embora os dotes de oratória do investigador, docente universitário, me tenham suscitado pouco interesse, o orador consegui pôr-me a pensar sobre a tarefa desafiaste e ao mesmo tempo ingrata de um professor: mais do que ensinar, é preciso levar o aluno a saber aprender e incutir nele o gosto pelo conhecimento, num tempo em que a escola parece estar cada vez mais fora de moda, o que também dá que pensar. Pena é que a maioria dos professores não reflictam sobre estes aspectos, limitando-se a debitar matéria, o que se compreende numa sociedade tecnologicamente mecanizada.
Ora, a carreira de docente implica ter em mente a priori um certo ideal de filosofia romântica, ou seja, um certo ideal de formar homens e mulheres heróis do seu próprio tempo, verdadeiros cidadãos esclarecidos.
O problema reside aí: sente-se acomodamento, sente-se o renunciar de responsabilidades de um verdadeiro pedagogo, sente-se o desnorte a que o estado social assiste sem nada fazer.
Sempre me empenhei, enquanto estive “por dentro” e na “fronteira” da carreira de docente com estes dilemas. Serei eu capaz de ser mentora de pessoas, no sentido de orientá-las no sentido de suscitar nelas o gosto pelo saber em demasia? Depressa me apercebi dos malefícios por que a classe está corroída, pela descrença com que se olha para um professor. Não me demiti do contributo social de educar, porque este não é exclusivo da classe docente. Apenas reorientei o meu caminho.
A propósito, quero deixar um forte agradecimento a uma parte dos meus professores do Ensino Secundário e às “mentes sábias” que encontrei na Universidade. Se a uns devo o gosto por conhecer todas as formas de arte, a outros devo a vontade e a curiosidade de descobrir.

* e porque os últimos são normalmente os primeiros, quero aqui dar os meus sinceros Parabéns à minha amiga Sara, com quem percorri os corredores da Faculdade de Letras, em muitos dos quais ganhávamos tempo a partilhar saberes e a construir conhecimentos e que hoje recebeu um Muito Bom na defesa da sua Tese de Mestrado. Amiga vai em frente!